Setor de turismo acredita em recuperação apenas a partir de 2021, aponta estudo

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Um relatório produzido pela Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (RBOT) em parceria com o Observatório de Turismo (Obstur/PR) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) mostra que as empresas de pequeno e médio porte do setor de turismo são as mais atingidas pela crise, tendo fluxo de caixa suficiente apenas para os próximos dois meses. O estudo “Sondagem empresarial dos impactos da Covid-19 no setor de turismo do Brasil” ouviu cerca de 5 mil empresários do setor em todo Brasil. Mais da metade (51%) acredita que a recuperação financeira só deve ocorrer em 2021 – 12% responderam que o faturamento deve melhorar apenas depois de 2021 e outros 3% disseram que não haverá recuperação do próprio negócio próprio.

Apesar do movimento de reabertura gradual da atividade econômica, a retomada da atividade turística deve se concentrar nos trajetos de curta distância. É o que explica a professora Juliana Medaglia, coordenadora executiva do Obstur/PR. “Qualquer viagem neste momento gera insegurança sanitária. Então as empresas precisam estar atentas à tendência do turismo local quando houver a retomada, porque provavelmente as pessoas vão escolher destinos próximos, onde se sentem mais seguras”, analisa.

A professora do Departamento de Turismo da UFPR também recomenda cautela para o setor, que deve seguir rigorosos protocolos de saúde. “As empresas devem comunicar aos clientes quais as ações de mitigação e de biossegurança que estão sendo adotadas, de forma conjunta com protocolos de saúde do estado ou cidade”, conclui.

Segundo os pesquisadores, o levantamento feito pela RBOT é apenas o primeiro retrato da crise no setor. A sondagem deve ser replicada em breve, para medir a evolução do cenário. Com base na comparação dos dados obtidos, novas pesquisas podem surgir para interagir com o mercado e avaliar as principais demandas.

O professor Osiris Marques, pesquisador do Observatório de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), reforça a importância da pesquisa na recuperação do setor. “O mais importante nesse momento é que a gente tome decisões a partir de dados e informações confiáveis, que sirvam como fonte para a tomada de decisão dos gestores”, alerta.

A sondagem sobre a Covid-19 foi o primeiro ensaio da rede de observatórios a produzir informação de forma colaborativa. Cada observatório contribuiu com uma base de dados regionais como ponto de partida para uma coleta amplificada através da internet. O Obstur/PR ficou responsável por agrupar estes dados e ajustar as metodologias de pesquisa para obter um único formulário, que pudesse ser compartilhado com todo o país.

De forma online, foram 4921 respostas, com participação de vários setores ligados ao turismo. “Isso facilitou a visualização e comparação dos dados entre as regiões. A vantagem que a UFPR trouxe foi a facilidade de usar métodos de pesquisa e o manejo de dados mais avançado”, explica Carlos Eduardo Silveira, professor do Departamento de Turismo da UFPR e membro do Obstur/PR.

Medidas para enfrentar a crise

Além do Obstur/PR, observatórios de 14 estados do Brasil que também fazem parte da Rede contribuíram para a finalização do relatório. A pesquisa contou com a participação de empresários dos setores de alimentação, hospedagem, agências e operadoras de turismo, associações, prefeituras e eventos.

Entre os dados obtidos, está a variação dos preços de bens e serviços durante a intensificação das medidas de isolamento social, que comprometeram o funcionamento da economia. O maior impacto foi registrado em abril, com redução do faturamento entre 75% e 100%. Também foi o mês com mais estabelecimentos fechados ou colocados em quarentena.

Com a realidade econômica alterada a cada semana, o setor turístico precisou mudar as medidas de mitigação para enfrentamento da crise. Até o final de março, o adiamento de investimentos, remarcação de serviços e oferta via delivery eram possíveis soluções para superar a queda no faturamento.

Quatro a cada dez empresas demitiram funcionários

Com o agravamento da crise em abril, entram na lista de medidas a demissão de funcionários e a abertura de empréstimos e novos financiamentos. “Por um lado, os bancos não oferecem crédito por falta de garantias no pagamento, por outro, a gente vê um atraso dos governos em ajudar especialmente as pequenas empresas”, alerta Marques.

A conta é simples. Se o faturamento cai, as demissões aumentam. A cada dez empresas ouvidas na pesquisa, quatro tiveram que demitir funcionários, principalmente nos setores de hospedagem e alimentação. “É uma realidade difícil. A sondagem mostra que as empresas menores têm um fôlego muito curto nos fluxos de caixa. Sabemos que a pandemia deve durar muito tempo, afetando diretamente o setor de turismo, que depende da mobilidade das pessoas”, comenta.

Se a recessão que atingiu as principais economias do mundo em 2008 fez com que o turismo internacional congelasse, o cenário de 2020 é ainda mais grave, de acordo com o professor Osiris. “Em 2008, tivemos uma crise que não afetou o setor de forma estrutural, como vemos hoje. Os atrativos turísticos estão estagnados em uma crise sem precedentes”, conclui.

Por Luiz Fernando Hanysz
Sob supervisão de Chirlei Kohls
Parceria Superintendência de Comunicação e Marketing (Sucom) e Agência Escola de Comunicação Pública e Divulgação Científica e Cultural da UFPR